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Diocese de Barretos

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Dom Milton Kenan Jr.

A condição dos que vivem em situação de rua

Neste ano, a Campanha da Fraternidade, que tem como tema “Fraternidade e Moradia” e cujo lema é “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), chama a nossa atenção não só para os milhões de brasileiros e brasileiras que não têm uma moradia, mas, dentre eles, para as milhares de pessoas que vivem em situação de rua.

A rua não é casa para ninguém

Antes de tudo, é preciso compreender que ninguém pode ser considerado como “morador de rua”. A rua não é casa para ninguém, é o lugar de ninguém; a rua é sempre um lugar de risco, onde a dignidade da pessoa humana é espezinhada e ofuscada.

Por isso, a expressão “morador de rua” é inadequada! Já há tempos, as pessoas que vivem na rua são consideradas “em situação de rua” (um tempo de maior extensão), porque se encontram lá devido à sua extrema vulnerabilidade. Essa condição é fruto da dependência de drogas lícitas ou ilícitas, da extrema pobreza e miséria a que estão reduzidas, ou, então, de dolorosos conflitos que as obrigam a deixar seus lares e a viver ao desabrigo.

Nós podemos dizer que as pessoas em situação de rua estão entre os últimos, de fato os últimos; aqueles e aquelas que ninguém enxerga, tidos como culpados pela sua própria sorte, condenados a viver na marginalidade sem ninguém que perceba a gravidade da sua condição.

O exemplo de São Francisco de Assis

Num tempo semelhante ao nosso, Francisco de Assis — filho de Pedro Bernardone, rico comerciante de Assis, na Itália, de cuja morte celebramos 800 anos neste ano — converteu-se ao Evangelho quando se deu conta da realidade vivida pelos que perambulavam pelas ruas à espreita de uma moeda, de uma coberta, de um pouco de comida para matar a fome. Convertendo-se, Francisco desfez-se de tudo para tornar-se um deles, porque, além da dignidade humana, descobriu neles irmãos e irmãs.

No artigo “Irmãos e irmãs em situação de rua – Não havia lugar para eles na hospedaria (Lc 2,7)”, Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães, bispo diocesano de Santos (publicado na Revista Vida Pastoral de março-abril de 2026), escreve:

“Na rua é preciso fazer a passagem do não ir nem vir (porque as pessoas nessa situação ou trajetória são encurraladas em determinados espaços) para o ir e vir com liberdade; da rua sem sentido e totalmente irrelevante (porque ela é uma prisão a céu aberto) para a rua que faz sentido e torna-se relevante para cada um, com sua história de vida; da rua como lugar de andar (andam o tempo todo) para a rua onde se aprendem métodos que libertam, métodos que fazem as pessoas solidárias, esperançosas e métodos para vencerem a situação de rua, recuperarem as moradias e viverem apaziguadas em relação às ruas” (p. 25).

O trabalho de acolhimento em Barretos

Barretos, cuja bandeira ostenta o lema “Fratres Sumus Omnes” (Todos somos irmãos), pode orgulhar-se pelo trabalho realizado pela Fundação Padre Gabriel, que oferece à população em situação de rua acolhimento, assistência médica e odontológica, espaço de convivência, abordagem empática e o testemunho da fé cristã que não se omite diante dos desafios, mas os enfrenta com coragem.

Merecem nosso respeito não somente os membros da Comunidade Célula Mater, que administra a Casa de Passagem “Pe. Gabriel Correr”, situada no Jockey Clube, mas também as autoridades públicas, os profissionais, voluntários, comunidades de fé e colaboradores que oferecem recursos para que não falte à população em condição de rua o necessário para aliviar o fardo que pesa sobre ela.

Um apelo à ação e à empatia

Há muitos que ainda insistem em considerar os irmãos e irmãs em condição de rua como “moradores de rua”, seja por ignorância, por desrespeito, ou talvez como uma forma de desculpar-se diante da sua própria omissão.

Oxalá os católicos e católicas de nossa cidade e diocese, animados pela Campanha da Fraternidade, despertem-se para o compromisso de socorrer esses irmãos e irmãs, certos de que, no juízo final, serão recompensados por Jesus, que dirá ser Ele mesmo, nos mais pequeninos, quem recebe todo o bem que lhes é oferecido (cf. Mt 25, 31-46).

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